As artes visuais na América Latina nunca foram apenas decorativas ou contemplativas. Durante as ditaduras militares que assolaram o continente entre as décadas de 1960 e 1980 — no Brasil (1964-1985), Argentina (1976-1983), Chile (1973-1990), Uruguai (1973-1985) e em outros países —, artistas usaram sua criatividade como forma de resistência, denúncia e sobrevivência. Este artigo explora como pintura, gravura, fotografia, performance e instalação tornaram-se armas contra a censura, a tortura e o desaparecimento forçado.
1. A Gravura como Arma de Divulgação
Em países com alta taxa de analfabetismo, a imagem impressa era acessível e multiplicável. No Brasil, o Grupo dos Cinco (Carlos Scliar, Renina Katz, entre outros) produziu xilogravuras e serigrafias de crítica social. No Chile, a publicação de Artesanía Visual (1974) e o trabalho do Taller de Gráfica Libre levavam às ruas imagens de resistência ao regime de Pinochet.
A argentina Lea Lublin (1929-1999) criou cartazes e panfletos com mensagens subversivas. A gravura permitia que arte circulasse clandestinamente, colada em muros ou escondida em livros.
2. Fotografia e Memória: Mostrar o Invisível
Diante da censura à imprensa, a fotografia documental tornou-se ato de coragem. O Coletivo de Fotógrafos do Chile (formado por Claudio Pérez, Jorge Campos, entre outros) registrou protestos, prisões e a vida nos bairros populares, arriscando suas vidas. Muitos desses acervos foram enterrados ou enviados ao exílio.
Na Argentina, as Mães da Praça de Maio usavam fotografias dos filhos desaparecidos como cartazes, transformando imagens privadas em símbolo público de luta. A fotógrafa Sara Facio (1932-2024) documentou a resistência através de retratos de artistas, escritores e mães.
No Brasil, Claudia Andujar (1931–) fotografou a luta dos ianomâmis contra a invasão de garimpeiros — uma resistência que ganhou força justamente durante a ditadura.
3. Instalação e Performance: Corpo como Protesto
Quando pincéis e telas eram censurados, o próprio corpo tornou-se suporte e mensagem.
· Hélio Oiticica (Brasil): Durante o exílio em Nova York (1971-1978), criou a série Éden, que incluía tendas, projeções e objetos interativos. Embora não fosse abertamente político, sua proposta libertária era um ataque direto ao moralismo militar.
· Lygia Pape (Brasil): Em 1968, ano do AI-5, criou o Livro do Tempo, uma instalação com fitas métricas e espelhos que questionava controle e liberdade. Sua série Ttéia (1970s) usava fios de linha que o espectador tinha que atravessar, simulando labirintos da repressão.
· Graciela Carnevale (Argentina): Em 1968, realizou a ação El encierro: convidou espectadores para uma galeria, saiu, fechou a porta e deixou-os trancados por uma hora. A obra simulava sequestro e desaparecimento, prenunciando o terror que viria.
· Lotty Rosenfeld (Chile, 1943-2020): Membro do CADA (Coletivo de Ações de Arte), ela modificou placas de trânsito em Santiago, escrevendo frases como "UNA CASA ES UN CUERPO" (Uma casa é um corpo) — um ato mínimo mas poderoso contra a vigilância.
4. A Arte Postal e o Exílio
Comunicar-se entre países era perigoso, mas o correio funcionava como rede clandestina. A arte postal (mail art) permitia que artistas exilados — como o brasileiro Paulo Bruscky (1949–) — enviassem colagens, carimbos e mensagens cifradas para parceiros na Europa e EUA. Essas redes burlavam a censura e criavam uma comunidade de resistência transnacional.
5. A "Geração 80" e o Retorno à Pintura
Com a abertura democrática (meados dos anos 1980), surgiu uma nova geração que, à primeira vista, parecia apolítica, mas que trazia a memória da ditadura de forma diluída. No Brasil, a Geração 80 (Daniel Senise, Leonilson, Beatriz Milhazes, Leda Catunda) pintou com cores vibrantes e ironia, mas frequentemente abordava a ausência, o silêncio e a fratura.