LATAMARTE: Como começou sua trajetória no mundo do cartum?
Kamal Sharaf: Eu era uma criança muito calada, e o desenho tornou-se minha forma de expressar sentimentos e sonhos. Um momento decisivo aconteceu quando encontrei um livro de obras do cartunista palestino Naji al-Ali em um mercado de livros usados em Sana'a. Percebi que o desenho podia transmitir uma mensagem, defender uma causa e expressar uma posição. A partir daquele momento, o cartum tornou-se minha linguagem.
LATAMARTE: Por que o cartum está tão ligado à sua personalidade e às suas convicções?
Kamal Sharaf: O cartum está muito próximo de quem eu sou. Não o escolhi apenas como profissão ou como caminho para a fama, mas como uma arte ligada ao meu interior, à minha personalidade e às minhas convicções. Uma imagem simples pode comunicar-se além das diferenças de idioma e cultura. Por isso considero o cartum uma linguagem universal.
LATAMARTE: Por que você se dedica principalmente ao cartum político e social?
Kamal Sharaf: Acredito em determinadas causas e quero falar sobre elas com as pessoas. O cartum pode ter valor artístico, cultural e filosófico e transformar-se em uma ferramenta de defesa da verdade. Para mim, não é apenas uma piada visual nem um meio de ganhar dinheiro.
LATAMARTE: Por que você acredita que o cartum ganhou maior importância atualmente?
Kamal Sharaf: Muitos acreditavam que o cartum era uma arte antiga que desapareceria. No entanto, a tecnologia e a cultura visual atual tornaram-no ainda mais relevante. Vivemos em uma época de imagens curtas e comunicação rápida. O cartum pode transmitir uma ideia profunda por meio de linhas simples, enquanto a internet permite que essas obras alcancem públicos de todo o mundo.
LATAMARTE: Quanto tempo você leva para criar um cartum?
Kamal Sharaf: A ideia é a parte mais difícil e que mais tempo exige. Às vezes passo três ou quatro horas procurando uma ideia simples e profunda. A execução, porém, procuro fazer de maneira rápida e simples. Durante uma guerra, não é possível passar horas trabalhando apenas na beleza visual. Chamo esse método de “simplicidade profissional”.
LATAMARTE: Você desenha todos os dias?
Kamal Sharaf: Trabalho quase todos os dias, exceto em circunstâncias especiais, como viagens, quando não consigo desenhar continuamente.
LATAMARTE: A tecnologia digital ajudou seu trabalho?
Kamal Sharaf: Muito. Atualmente utilizo uma mesa digitalizadora e o Photoshop. A tecnologia não eliminou a mão do artista. Continuamos desenhando, mas as ferramentas digitais reduzem o tempo de produção e permitem trabalhar mais rapidamente.
LATAMARTE: Quando você olha para seus trabalhos antigos, ainda se reconhece neles?
Kamal Sharaf: Nem todos os trabalhos permanecem ligados ao artista da mesma maneira. Alguns pertencem a uma determinada fase e, posteriormente, deixam de refletir nosso mundo interior. Quando compreendi que a honestidade deveria estar presente tanto no meu pensamento quanto no meu trabalho, comecei a criar obras que realmente refletissem minhas convicções. Se anos depois ainda me sinto ligado a uma obra, sei que ela permaneceu viva.
LATAMARTE: Você já desejou a fama. O que pensa sobre ela hoje?
Kamal Sharaf: No início, como muitos artistas, eu queria ser famoso. Depois percebi que a fama pode ser uma ilusão. Pressões e ataques contra mim fizeram com que eu parasse de trabalhar por algum tempo. Então voltei a perguntar a mim mesmo: por que você desenha? A resposta foi expressar aquilo que existe dentro de mim. Desde então, a honestidade e a ligação com minhas convicções tornaram-se mais importantes do que a fama.
LATAMARTE: Os cartunistas estão sujeitos a pressão e vigilância?
Kamal Sharaf: Certamente. A mídia israelense já publicou diversas reportagens sobre meu trabalho. O cartum pode funcionar como análise política, artigo jornalístico e até documentação visual. Por isso, a mídia e as forças políticas levam essa arte a sério. A história do cartum também mostra que artistas como Naji al-Ali enfrentaram fortes pressões por causa de seu trabalho.
LATAMARTE: Essas ameaças podem impedir um artista de continuar?
Kamal Sharaf: Se o artista acredita sinceramente em uma causa firme, as ameaças não deveriam mudar seu caminho. Elas podem até demonstrar que sua obra teve impacto. Mas se o artista trabalha principalmente por fama, dinheiro ou aceitação da mídia estrangeira, a pressão pode influenciá-lo. O artista precisa conhecer seu próprio caminho.
LATAMARTE: Existem interesses ocultos por trás do mundo do cartum?
Kamal Sharaf: Sim. Alguns cartunistas adaptam seu trabalho às posições políticas dominantes ou ao ambiente da mídia internacional e, como resultado, conseguem mais renda e oportunidades. Acredito, porém, que o artista deve preservar sua independência intelectual.
LATAMARTE: O artista deve sempre assinar seus trabalhos?
Kamal Sharaf: Para mim, sim. Tenho orgulho das obras que crio e quero que elas tenham minha assinatura. Até meu estilo de desenho e as cores que escolho fazem parte da minha identidade artística. Não quero esconder meu trabalho nem abandonar minha identidade para agradar a todos.
LATAMARTE: Por que continua produzindo cartuns políticos e sociais?
Kamal Sharaf: Porque quero expressar aquilo em que acredito. Não é importante para mim que todas as obras se tornem famosas. O importante é que sejam honestas e registrem algo da realidade do nosso tempo. Pessoas livres existem em todos os lugares e conseguem reconhecer uma arte sincera e autêntica.
LATAMARTE: Qual é a responsabilidade mais importante de um cartunista?
Kamal Sharaf: Acredito que a principal responsabilidade do artista é a honestidade. Ele precisa saber por que cria e não deve sacrificar todo o seu caminho artístico pela fama, pelo dinheiro ou pela aprovação dos outros. O cartum pode ser uma linguagem simples para expressar ideias profundas e registrar a verdade de seu tempo.
Kamal Sharaf, renomado cartunista iemenita, é um dos artistas mais proeminentes da frente cultural da resistência. Nascido no I ...