Dedicado ao meu pai
O ensaio fotográfico “Homens de Vapor” é um projeto pessoal que começou na garagem da minha casa em Havana, durante uma das muitas tentativas de manter o velho carro do meu pai funcionando.
Nós estávamos retirando o motor, que funcionava quase bem, porque um amigo havia nos dado uma peça sobressalente para que ele funcionasse ainda melhor.
Mas quando montamos tudo novamente, não funcionou como esperávamos e o motor começou a soltar muita fumaça.
Meu pai riu e disse: “Isto parece mais uma locomotiva a vapor do que um carro!”
Nesse exato instante, uma faísca de inspiração acendeu em mim e prometi a ele que capturaria a alma daquelas poderosas locomotivas a vapor que, para minha grande sorte, ainda reinavam como parte essencial do transporte em Cuba—especialmente na indústria do açúcar.
“Homens de Vapor” conta a história dessas máquinas, que eram cuidadosamente mantidas e reparadas por seus operadores.
Esses homens eram incrivelmente criativos e engenhosos. Mesmo com pouca educação formal, conseguiam manter vivos esses poderosos animais todos os dias. Eles me disseram que, para cada locomotiva “viva”, havia duas ou três “mortas” no ferro-velho. Esse “cemitério” era a versão deles de uma loja de peças, onde procuravam o que precisavam.
A jornada de trabalho média de uma equipe de locomotiva começava às 4 da manhã e terminava depois das 6 da tarde. Além do perigo constante de explosões da caldeira, as condições de trabalho eram exaustivas. A equipe tinha que verificar constantemente cada parâmetro e improvisar reparos e soluções para manter as máquinas em serviço.
O pagamento? Um salário miserável e a promessa de ganhar uma televisão ou uma máquina de lavar como prêmio, caso ultrapassassem a cota.
Sebastião Salgado nasceu em 8 de fevereiro de 1944 em Aimorés, Minas Gerais, Brasil. Formou-se originalmente como economista e ...