LATAM ARTE: Você dedicou mais de quatro décadas de sua vida ao cartum e ao humor gráfico. O que despertou inicialmente seu interesse pelo desenho e pela caricatura? Desde o começo imaginava que essa seria sua profissão?
Gilmar Machado: O desenho sempre foi mais do que um passatempo para mim, mesmo na adolescência. Eu sentia que, por meio de linhas e imagens, poderia expressar coisas que às vezes eram difíceis de comunicar com palavras. Aos poucos, percebi que o cartum não serve apenas para fazer as pessoas rirem; é também uma maneira de observar, analisar e questionar o mundo ao nosso redor. Quando entrei no universo da imprensa, compreendi que essa linguagem visual poderia fazer parte da vida social e política.
LATAM ARTE: Você iniciou sua carreira profissional em 1984 e passou muitos anos trabalhando na imprensa sindical e dos trabalhadores. Como essa experiência influenciou sua compreensão da sociedade?
Gilmar Machado: Aquele período foi extremamente importante para a formação da minha identidade profissional. Trabalhar na imprensa sindical me aproximou da vida cotidiana das pessoas, das dificuldades econômicas, das desigualdades e das lutas sociais. Percebi que a política não acontece apenas dentro dos prédios do governo; ela está presente na vida diária das pessoas. Essa experiência me ensinou que, para criar um bom cartum, é necessário conhecer a sociedade e ouvir as preocupações das pessoas.
LATAM ARTE: Na sua opinião, qual é a principal responsabilidade de um cartunista político? O cartum deve apenas refletir a realidade ou também deve questionar aqueles que estão no poder?
Gilmar Machado: O cartunista precisa pensar livremente e não considerar nenhum poder acima da crítica. Para mim, o cartum é uma forma de jornalismo visual. Com uma única imagem, podemos revelar uma contradição que talvez um longo artigo não consiga mostrar com a mesma rapidez. Isso não significa ser contra tudo permanentemente. O mais importante é preservar a independência intelectual e não permitir que o poder político ou econômico determine o que devemos enxergar ou como devemos nos expressar.
LATAM ARTE: A liberdade de expressão é uma das grandes questões do universo do cartum. Muitos cartunistas em diferentes países enfrentam ameaças, censura e pressões. Como você avalia essa situação?
Gilmar Machado: A liberdade de expressão é essencial para o cartum. Quando o artista não pode desenhar livremente por medo de ameaças ou punições, uma parte importante da função social da arte desaparece. Naturalmente, a liberdade de expressão também envolve responsabilidade. Acredito que o artista deve ser corajoso, mas também consciente da realidade e das consequências de seu trabalho. Ameaças e violência não podem substituir o diálogo e a crítica.
LATAM ARTE: Durante a presidência de Jair Bolsonaro, você produziu diversos cartuns críticos. Como esse período influenciou seu trabalho artístico?
Gilmar Machado: Foi um período de grande tensão política e social e, naturalmente, ofereceu muitos temas para o cartum. Procurei acompanhar os acontecimentos de maneira crítica e mostrar contradições e situações que mereciam reflexão. Para um cartunista, é importante não apenas repetir slogans políticos, mas observar a realidade de outra perspectiva e oferecer ao público a oportunidade de pensar.
LATAM ARTE: Você recebeu importantes prêmios, como o Troféu HQ Mix e o Prêmio Vladimir Herzog, e em 2024 conquistou o Grande Prêmio do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. O que essas conquistas representam para você?
Gilmar Machado: Todo prêmio traz alegria, especialmente quando vem do reconhecimento de colegas profissionais e da comunidade artística. Entretanto, nunca considerei os prêmios como o principal objetivo do meu trabalho. Mais importante é ter a possibilidade de continuar criando, preservar minha independência e manter o contato com o público. Os prêmios podem servir de motivação, mas também aumentam a responsabilidade do artista.
LATAM ARTE: Em seu projeto Brasil em Charges, você registra acontecimentos políticos e sociais brasileiros por meio do cartum. Acredita que essas obras podem se transformar em documentos históricos?
Gilmar Machado: Sem dúvida. O cartum pode registrar o espírito de uma época histórica. Uma imagem pode parecer engraçada à primeira vista, mas, anos depois, tornar-se um documento que ajuda a compreender as preocupações, os conflitos e o ambiente social de determinado período. O cartum editorial não trata apenas dos acontecimentos do dia; também faz parte da memória coletiva de uma sociedade.
LATAM ARTE: Poderia falar sobre seu processo criativo? Quando lê uma notícia política, como desenvolve uma ideia para um cartum? O desenho manual ainda ocupa um lugar central em seu trabalho?
Gilmar Machado: Geralmente começo lendo a notícia e tentando identificar sua principal contradição ou questão central. Às vezes, uma frase, um comportamento ou até mesmo um pequeno detalhe pode inspirar toda a ideia. Depois procuro uma imagem capaz de transmitir esse conceito com o menor número possível de elementos. O desenho manual e o contato direto com o papel continuam sendo muito importantes para mim. O lápis e o papel me permitem estabelecer uma relação direta com a ideia.
LATAM ARTE: A inteligência artificial está transformando o mundo da ilustração e das artes. Você considera essa tecnologia uma oportunidade para os artistas ou uma ameaça ao futuro do cartum?
Gilmar Machado: Toda nova tecnologia traz possibilidades e preocupações. A inteligência artificial pode ser útil em determinadas etapas do processo criativo, mas a criatividade artística não consiste simplesmente em produzir uma imagem. O cartum nasce da experiência de vida, do conhecimento da sociedade, da sensibilidade humana e do olhar crítico do artista. Nenhuma ferramenta tecnológica pode substituir sozinha essa experiência. A questão principal é como escolhemos utilizar a tecnologia.
LATAM ARTE: Que conselho daria aos jovens artistas que desejam entrar no universo do cartum político e social?
Gilmar Machado: Eu aconselharia os jovens a não se limitarem ao desenho. Leiam livros e jornais, acompanhem a história e a política e mantenham a curiosidade sobre a sociedade em que vivem. Saber desenhar bem é essencial, mas não é suficiente para se tornar um cartunista relevante. É preciso aprender a pensar, observar e analisar as questões sob diferentes perspectivas. Acima de tudo, encontrem sua própria linguagem visual.
LATAM ARTE: O que distingue o cartum latino-americano? O humor gráfico pode criar conexões culturais entre artistas do Irã e dos países da América Latina?
Gilmar Machado: A América Latina possui uma história complexa de transformações políticas, desigualdades sociais e lutas culturais, e essas realidades também aparecem em seu cartum. Apesar das diferenças de idioma e cultura, muitas questões humanas são compartilhadas entre os países. O humor gráfico pode construir pontes entre culturas porque as imagens não estão limitadas pelas fronteiras linguísticas. A cooperação entre artistas iranianos e latino-americanos poderia criar oportunidades valiosas de conhecimento mútuo e intercâmbio de experiências.
LATAM ARTE: Para finalizar, quais projetos você está desenvolvendo atualmente e como gostaria que seu legado artístico fosse lembrado pelas futuras gerações?
Gilmar Machado: Ainda quero desenhar, observar e fazer perguntas sobre o mundo ao meu redor. Para mim, é importante que o cartum continue vivo e que as novas gerações possam desenvolvê-lo com sua própria linguagem e estilo. Se minhas obras puderem ajudar outras pessoas a olhar para a história, a sociedade e o poder com uma perspectiva mais crítica, sentirei que minha trajetória artística valeu a pena.
Gilmar é cartunista, publica seus desenhos em jornais, revistas e livros. É autor de dez livros de tiras/quadrinhos, três deles a ...